Diariamente estamos nos deparando com situações que nos apontam para a necessidade urgente de uma revisão acerca da maneira como as relações pessoais estão sendo estabelecidas.
As constantes mudanças nos valores éticos, as grandes guerras, as desigualdades sociais,a violência urbana e doméstica trazem subjacente a perda de certos preceitos essenciais para um convívio social mais harmonioso, além de contribuir para nos conscientizarmos sobre o processo de desumanização em que estamos envolvidos.
As Clínicas Psicológicas e os demais espaços de tratamento estão repletos de indivíduos em busca de respostas para as dificuldades e aflições causadas, quase sempre, pela falta de referências valorativas que asseverem e sustentem uma vivência dignamente humana. Enquanto as relações interpessoais definham - cedendo lugar para a violência e a individualização -, o ser humano se distancia cada vez mais daquilo que possui de melhor, algo intrínseco a sua existência, ou seja, o cuidado.
A origem da palavra cuidado vem do latim cura, escrita na forma de coera, para contextualizar as relações de amor e amizade, uma atitude de desvelo, preocupação e inquietação pelo outro.
O teólogo Leonardo Boff acredita que o cuidado é algo tão fundamental, que foi visto pelos gregos como uma divindade que acompanha o ser humano por todo o tempo de sua peregrinação terrestre. Para ele, o cuidado deve ser cultivado como precondição essencial para a vida sob qualquer uma de suas formas. Assim, deve estar direcionado ao próprio nicho ecológico, à sociedade sustentável, ao outro, aos excluídos, ao nosso corpo e à cura integral do ser humano.
Mas foi Heidegger, filósofo que buscava em suas investigações fenomenológicas as determinações essenciais do ser humano, quem melhor expôs a idéia do ser se constituindo no cuidado. Em sua obra “Ser e tempo”, Heidegger demonstra que o cuidado não é algo que possamos ou não ter em determinadas situações ou setores de nossas vidas, já que ele é constituinte da dimensão ontológica humana. Nessa visão transcendente, o ser humano não tem cuidado, é o próprio cuidado.
Nesse sentido, cabe recordar o que nos conta a mitologia: “Certo dia, ao atravessar um rio, Cuidado viu um pedaço de barro. Logo, tomou um pouco deste barro e começou a dar-lhe forma. Júpiter apareceu e Cuidado lhe pediu que soprasse espírito naquilo que ele havia moldado. Júpiter assim o fez. Quando Cuidado decidiu dar nome à criatura que acabara de criar, Júpiter exigiu que fosse imposto o seu nome. Terra apareceu e também quis conferir o seu nome à criatura, já que havia sido feita de barro, material do seu corpo. Saturno, funcionando como árbitro, tomou a seguinte decisão: Júpiter, que lhe deu o espírito, receberá de volta este espírito por ocasião da morte desta criatura. Terra, que lhe deu o corpo, receberá de volta o seu corpo quando ela morrer; e a criatura será chamada de homem, feito de húmus, terra fértil. E, como Cuidado o moldou, ficará sob seus cuidados enquanto ele viver”.
Trazendo a reflexão do Mito do Cuidado para o centro desta discussão, e abraçando a possibilidade de tê-lo como algo inerente à condição humana, talvez possamos amenizar o agravamento da crise ético-moral vigente, para nos livrarmos da incômoda sensação de vivenciar esta infame solidão coletiva, nem que tenhamos que nos misturar de novo ao barro, ter novamente o espírito soprado por Júpiter, para que assim, Cuidado volte a ser responsável pela nossa existência.
Daí a necessidade de renovar a cada instante a possibilidade de ter o cuidado como instrumento das relações pessoais, para que nossas esperanças não fiquem perdidas em meio às cinzas do cogumelo de Nagasaki. Caso contrário, muito teremos que aspirar para juntar o pó onde se perderam a ética, a moral, o altruísmo e o respeito à dignidade humana. Tenhamos pressa, pois o vento sopra forte.
Artigo publicado no Diário de Pernambuco – Opinião – A11
Em 25 de novembro de 2008
Alterado em 06 de setembro de 2010
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