O episódio envolvendo a excomunhão da equipe médica que realizou o abortamento na criança de nove anos, vítima de estupro cometido pelo padrasto, na cidade de Alagoinha, reavivou a polêmica em torno do posicionamento da Igreja Católica diante do aborto, assim como trouxe à tona algumas contradições que envolvem esta instituição religiosa secular.
Imbuído pelo espírito protetor do direito à vida, o representante maior da Arquidiocese de Olinda e Recife levantou a bandeira de oposição ao aborto, por considerar esta prática abominável aos olhos de Deus e contrária aos preceitos morais cristãos. Na sua balança condenatória, no entanto, não pesaram os estupros consecutivos sofridos pela criança, desde que a mesma tinha 6 anos de idade. Parece ter tido pouca relevância, também, o direito à vida da própria criança violentada, haja vista, ter sido desconsiderada a declaração da equipe médica sobre os riscos iminentes que ela corria ao prosseguir com a gestação de gêmeos.
Houve um tempo, porém, em que pessoas foram perseguidas, torturadas, enforcadas e queimadas vivas, nas funestas fogueiras da Inquisição. Os rituais cruéis eram realizados em praça pública, e as punições destinadas àqueles que, de alguma forma, ameaçassem as doutrinas impostas pela Igreja Católica. Contrariando a lógica hoje difundida pelo referido Arcebispo, a sua Igreja, na Idade Média, matava em nome da preservação e garantia dos preceitos morais cristãos. Estima-se que o Santo Ofício ceifou mais vidas do que o nazismo, na Segunda Guerra Mundial.
Joana d'Arc foi uma das vítimas da carnificina inquisitória. Após comandar um exército de aproximadamente 4 mil soldados e obter êxito na batalha de Orléans - na qual a França tentava se libertar do domínio Inglês - , a heroína passou a ser perseguida sob a acusação de heresia e bruxaria, ao assumir ouvir vozes que lhe orientavam. Julgada à revelia, foi queimada ainda com vida. Tempos depois, teve sua "culpa" perdoada pela Igreja, que a reconheceu por suas virtudes heróicas, provenientes de uma suposta missão divina. Assim, Joana d'Arc foi canonizada e tornou-se santa pelas mesmas mãos que, tempos atrás, sentenciaram-na com a pena de morte.
Em recente visita à África, o Papa Bento XVI criticou com veemência o uso de preservativos nas relações sexuais. As declarações do sumo pontífice podiam ter tido um peso diminuto, não fosse a África um continente assolado pela AIDS. Fala-se que um quarto da população africana esteja infectada com o vírus HIV. São registrados oito novos casos da doença por minuto e a Organização Mundial de Saúde prevê que até o ano de 2010 a Aids poderá matar mais de 50 milhões de pessoas, em todo o mundo. Diante disto, rechaçar o uso de preservativos é induzir, indiretamente, o povo africano a uma espécie de suicídio coletivo.
Aqui no Brasil, precisamos garantir o que apregoa nossa Constituição Federal, no sentido de defender a liberdade de consciência e de crença. Não esquecendo, no entanto, que nosso país é laico, e como tal, não admite o predomínio de nenhuma instituição religiosa sobre as demais. Como também, não é delegado a Igreja alguma o poder de interferir nas questões de responsabilidade do estado. Desta forma, evitamos que certos equívocos sejam cometidos em nome de Deus e asseguramos que a democracia verdadeiramente prevaleça.
Enquanto não logramos êxito na compreensão de como ocorre o envio da "procuração divina" para aqueles que legislam em nome de Deus, aqui na terra, resta-nos renovar nossas esperanças em pessoas como Madre Tereza de Calcutá, Irmã Dulce, Dom Helder Câmara, Leonardo Boff, Frei Aluísio Fragoso e Ivone Gebara, que fizeram e fazem das suas práticas eclesiásticas verdadeiros exemplos de busca pela equidade social e respeito ao próximo. E que Deus nos ajude a compreender a lógica do contraditório.
Artigo publicado no Jornal Diário de Pernambuco/Opinião
Em 20 de abril de 2009
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